domingo, 4 de janeiro de 2009

CUBA Libre!


A praça da revolução. Agora sem Fidel. E vazia. Porque não houve dinheiro para fazer uma festa em Havana.

Cuba


Nosso motorista com seu táxi azul pelas ruas de Havana

Cuba 18 anos depois...


Passei os feriados de fim de ano em Cuba. Esta foi a segunda vez que estive na ilha, que, aliás, está comemorando 50 anos da revolução liderada por Fidel e Che Guevara. Nem preciso dizer o choque que levei há 18 anos. Em 1990, quando estive lá pela primeira vez, Havana era uma cidade destruída, quase em ruínas, com prédios e casas mal conservadas, ocupados por famílias inteiras pendurando suas parcas roupas nas janelas, verdadeiros cortiços escuros, quentes e úmidos, com fiação elétrica exposta, encanamento de água e chuveiro quente eram luxos. Casas confiscadas dos ricos da era Batista. Foi justo, para as circustâncias da revolução na época. Não havia tinta para pintar os prédios, tudo descascava a olhos vistos. Os carros mais novos a circularem eram os russos Mazda dos anos 70, aqueles quadrados e feios, bem comuns no leste europeu nos tempos do socialismo soviético. Mas a maioria dos veículos ainda era composta de carros americanos, dos anos 50, com seus rabos de peixe e motores recuperados ao longo dos anos, o que permitiu a proliferação de mecânicos em Cuba, fazendo deles verdadeiros experts na arte de reciclar peças e motores para ganhar um dinheirinho extra. Não havia lojas, as poucas no centro da cidade tinham vitrines pálidas, com algumas camisas brancas (os homens cubanos ainda as usam), sapatos pretos (tipo Paso Doble) , sapatos femininos meio grosseiros e beges. Não havia jeans, nem camisetas (simbolos do capitalismo na cabeça dos governantes, eu acho), nem blusinhas de verão, nem sandálias. Nas farmácias, o que mais me intrigava era a falta de produtos nas prateleiras, melancolicamente vazias.

Nos hotéis de Havana não havia fartura nem para turistas. Isso eu mesma experimentei em 1990. De tanto comer manga e abacaxi cheguei ao Brasil com uma estomatite gigantesca e fui parar na emergência do Hospital 9 de Julho. Nas praias de Varadero e Cayo Largo, os espanhóis construíram seus hotéis de luxo com muito conforto, embora com suprimentos oferecidos ainda de forma comedida. Faltava papel higiênico, um mixto quente no meio da tarde era considerado uma iguaria e conseguir um cadeado para fechar uma mala (já que a minha havia sido totalmente aberta e rasgada no trajeto de Caracas até Havana) se transformou numa epopéia de dois dias. Quando o camareiro chegou com o cadeado russo usado (desses antigos pesados que guardo até hoje como relíquia) no meio da noite, sussurrando e me cobrando 10 dólares por ele, eu imaginei como seria se eu tivesse pedido um ...secador de cabelos. Eles se esforçariam, mas não creio que encontrassem. Eram tempos de penúria. A União Soviética se desmanchara e a Rússia, agora sozinha, tinha de cuidar de sua própria casa, reduzindo drasticamente seus aportes ao povo cubano.
Apesar de tudo isso, as pessoas pareciam conformadas e alegres - conversei com algumas delas. Elas amavam, acima de tudo, o comandante Fidel. Eu não me identificara como jornalista, pois só assim eles poderiam me falar sobre seus sentimentos e expectativas abertamente, como se estivessem conversando com uma turista curiosa. "Temos saúde, educação e comida. O salário é baixo, mas vai melhorar", diziam.

Agora, dezembro de 2008, retornei à ilha. Se para meus amigos o choque foi parecido com o meu há 18 anos, o meu espanto agora foi motivado por outras razões.
O primeiro foi o preço dos serviços. Um peso convertible cubano (CUC) equivale a 1 euro (mais de 3 reais). Uma hora de internet custa 10 CUCs = 30 reais! É mais caro do que um charuto cubano Monte Cristo (7 CUCs). Um telefonema de 1 minuto para o Brasil sai por 21 reais. Talvez seja a ligação mais cara do mundo para dizer 'alô mãe, feliz ano novo". No hotel, uma latinha de coca-cola (a cubana) sai por 6 reais (2 CUCs) e um simples sanduíche de queijo e presunto (com fatias finas) o absurdo de 18 reais. Será que em Tóquio também é tão caro? Bem, pelo menos por lá, garanto que a qualidade do serviço é melhor.

Fiquei encantada, desta vez, com a beleza de Havana, e mesmo com a crueldade dos furacões que insistem em arrasar a região anualmente, vi uma cidade diferente, mais bonita, com muitos prédios históricos recuperados, pintados, ruas com calçamento novo, o Malecón com menos cortiços e, aos poucos, se integrando ao resto da paisagem que lhe é de direito. Mas as pessoas continuam morando mal, lá dentro, com certeza.
Vi muitos restaurantes abertos no centro antigo, novos e luxuosos hotéis, com vários tipos de comida e bebidas. Banheiros limpos, grandes, com toalhas, papel, sabonetes, xampús e cremes à vontade para os hóspedes. Bares servindo bebidas típicas. Tá certo que no hotel Panorama, um dos mais novos da cidade, faltava la erva buena (a hortelã) para fazer o típico mojito, uma falha impedoável para um cinco estrelas. São as limitações que Cuba ainda não conseguiu superar.
Os carros velhos já são minoria em Havana, substituídos por marcas européias, vans, motos e táxis modernos, alguns russos, outros franceses ou espanhóis. Até ônibus de dois andares para city tours já existe por lá.

Espantei-me também com o desperdício de comida e de bebida nos resorts cinco estrelas das praias de Varadero e Cayo Largo. Já não se come só abacaxi, manga, porco e frango. Os italianos e os canadenses praticamente lotearam alguns Meliás de Cayo Largo, tanto que os vôos partem direto da pequena ilhota (a oeste de Cuba, com 25 quilômetros de praias) para seus destinos em Milão, Roma, Québéc, Toronto, sem passar por Havana. Por conta desse novo assédio estrangeiro - que já tem mais de 1o anos - o abastecimento culinário foi reforçado para agradar paladares mais refinados como os dos próprios italianos. Sorte nossa.
Quando vi tudo aquilo me lembrei do povo cubano, forçado a uma dieta diária de arroz misturado a um tipo de feijão preto (mouros e cristianos, chama-se o prato), batatas e pollo (frango). Com raríssimas variações, dizem eles.
Lembrei da mulher que me parou na rua pedindo um sabonete ou alguma coisa para comer. Não era para ela, fazia questão de dizer, mas para o filho. Do funcionário do hotel de Havana perguntando se a gente tinha algum regalito do Brasil para o filho. Ou da camareira de olhos tristes do Meliá de Cayo Largo dizendo que já tinha limpado 18 habitaciones (quartos) naquela manhã, estava exausta e que só veria seus filhos (na ilha da Juventude, onde mora) dali a alguns dias.

Já sabia que os cubanos não tinham acesso às lojas, bares, restaurantes frequentados pelos turistas e pagos com pesos cubanos conversibles (CUCs). Mas, o interessante é que médicos, bioquímicos, professores, especialistas em arte, deixem suas profissões e seus diplomas para ganhar un poquito más servindo aos turistas, por causa das gorjetas e do salário um pouco melhor: 40 CUCs (mais ou menos 120 reais) ao mês. Assim, um mestre em história da arte se transforma num salva-vidas, vive seus dias a ajeitar cadeiras e guarda-sóis para nós na praia; uma engenheira graduada na Alemanha passa horas mudando roteiros, agendando passeios e excursões para os hóspedes, e um veterinário fica rebolando e cantando nos shows noturnos dos resorts e participando do grupo de animação para adultos e crianças ao longo do dia, e tudo em quatro idiomas. A queixa é sempre a mesma. Se não largassem suas profissões, o salário seria muito mais baixo. Não sei qual a profissão de verdade da camareira Elizabete, de olhar cansado. Mas ela não deveria ser diferente de seus colegas. Talvez uma professora, uma cientista, ou uma economista que hoje se dedica a arrumar camas e a limpar banheiros. Triste país este que deixa de lado sua mão-de-obra especializada e para acupá-la no entretenimento de um bando de turistas.

Não vi alegria nas pessoas desta vez. Talvez por elas terem acordado desse sonho imposto por uma revolução idealista ao longo de 50 anos. Acho que Raul Castro será uma espécie de Obama latino. Se quiser realmente mudar alguma coisa, e para melhor, terá de lidar com essa pesada herança de totalitarismo. Não tenho pretensão nenhuma ou manual de instruções para ousar dizer o que ele deve fazer. Só sei que dá para ver que algumas pontes desse socialismo começam a ruir, vamos ver até quando as que restaram vão resistir.








quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Ainda Madonna?

Será que eu virei uma preguiçosa, ou estou ficando velha? Ou será que por ter visto um show dela há 15 anos, eu tenha a impressão de que já vi todos? Madonna, apesar de estrela - e bota estrela nisso, no bom e no mau sentido - e de ter arrebatado milhões de pessoas nesses últimos 20 anos nunca me fez vibrar de verdade com suas canções. Confesso aqui, para mim mesma, e que ninguém me leia ou me ouça, que nunca soube cantarolar mais do que três frases de algumas de suas mais famosas canções. Pior, agora eu não saberia identificar mais nenhuma música da diva.
Ai, como você é antiga Barbara!
Mas a falta de entusiasmo é só com a Madonna de hoje. Espero. Lembro que eu estava louquinha para ver o U2 há dois anos e não consegui ingressos. E já não era nenhuma garota quando os vi em São Paulo há 10 anos. Stones, Paul McCartney, Sting, Madonna, Michael Jackson, todos entraram na minha lista de shows frequentados. Sempre gostei desses grandes espetáculos, das coreografias, do movimento, de encontrar as pessoas, tudo me faz sentir viva. E agora estou me programando para ver o Radiohead. Ou seja, não sou tão preguiçosa nem estou tão desconectada. No máximo, vintage.

Desejos da Érika


Vou reproduzir aqui um selinho de uma brincadeirinha enviada por uma querida amiga, a Erika Riedel, cujo blog http://terceirosinal.zip.net/ é uma delícia e recomendo a todos que amam o teatro. Prometo que tentarei participar, assim que terminar as matérias de fim de ano para o jornal e antes de embarcar para umas rápidas férias. Amiga, devo te dizer que não faço mais listas de fim de ano e que vou aproveitar os seus desejos. hehehe

"'Fui convidada pela Laura(Blog da Laura Fuentes) para uma brincadeira que está rodando o mundo. É um meme bem legal, dividido em três partes:

1ª parte: fazer uma lista de 8 desejos. Aqui estão os meus:

1º) Que cada ser humano cuide e se ocupe da sua própria vida;
2º) Que as mentiras criem braços e estrangulem seus autores;
3º) Que a inveja mate;
4º) Que a solidariedade se multiplique pelo universo;
5º) Que o amor seja possível para todos;
6º) Que o dinheiro sirva para melhorar e não estragar vidas;
7º) Que a felicidade seja uma espécie de chuva e caia sobre nossas cabeças;
8º) Que a fé nos acompanhe, sempre.


2ª parte: convidar oito blogueiros para continuar a brincadeira, comunicando-os do convite via posts em seus blogs. São eles:

Ivam Cabral
Astier Basílio
Blog da Anninha
Blog da Ale Staut
Blog da Pedrita
Blog do Alberto Guzik
Blog da Cleo de Páris
Blog da Barbara

Torcer para que meus convidados aceitem a brincadeira.

3ª parte: Comentar no blog que me convidou (já comentei), e orientar os convidados a publicarem o selinho da brincadeira, que está aqui no alto."'



terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Verão


Em Porto Alegre o verão deu as caras prá valer. Hoje deve estar uns 35 graus lá fora. Adoro, mas por pouco tempo. Além do calor, a umidade aqui é espessa. Quando saí de um ambiente refrigerado hoje de manhã e cheguei à rua, tive a sensação de poder cortar com a faca ou pegar com as mãos esse excesso de umidade do ar. Acho que Manaus tem um clima parecido, só que lá é o ano inteiro. Aqui, pelo menos, são só três meses. Depois, o frio é de matar. Terra de contrastes. Mas no sul o horário de verão faz a diferença. Ontem, o sol se pôs quase 9 horas da noite. Olhei no relógio, eram 8h50. Em São Paulo não sentimos muita essa vantagem do horário novo. SP, por ter um céu eternamente nublado ( poucas vezes vimos o céu azul), uma poluição constante no ar e ficar na região sudeste (quanto mais ao sul, mais longos os dias), começa a escurecer às 19h30 (18h30, na verdade). Isso não vale! Sinto muita falta dessa luz de Porto Alegre e de Florianópolis, do céu azul sem nuvens e que nos dá uma sensação de sermos acariciados eternamente.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Recomeço

As casas desabaram e foram soterradas, as ruas e avenidas sumiram do mapa. Supermercados alagados. As escolas que conseguiram ficar de pé estão lotadas de familias desoladas e que perderam tudo, familiares e amigos, o lar, os móveis e roupas, o emprego, seus animais, a própria cidade. Santa Catarina não sabe quanto tempo levará para se recuperar.
Vejo agora que seu João, uma dessas pessoas a quem não restou quase nada na vida, manteve o seu emprego. Ele retomou sua atividade de cuidar do jardim da escola onde trabalha, nem que seja só para remover parte do barro que toma conta do pátio. Flores? Nem pensar. Seu João precisa fazer "alguma coisa", para não pensar nas perdas. Pegar a pá e fazer de conta que está cuidando do jardim.
Foi uma primavera negra para os moradores de Santa Catarina. A estação das flores não teve a chance de mostrar seu esplendor e nem de sobreviver neste ano porque choveu três meses (quase sem parar) na região do leste e em parte do oeste catarinense. Então, seu João vai retomando aos poucos a sua vidinha como jardineiro. Senão vai enlouquecer. Como muitas pessoas que estão à espera de que "alguma coisa" boa aconteça a elas. Seu João perdeu quase tudo sim (a casa, os móveis, familiares), mas se consola ao dizer que, pelo menos, lhe restaram o trabalho, o gato e o cachorro. E com isso, ele terá forças para recomeçar.

É emocionante a solidariedade dos brasileiros com os desabrigados catarinenses. Não me lembro de ter visto tanta gente se movimentando para uma causa tão justa. Simplesmente maravilhoso.