domingo, 26 de outubro de 2008

Irmãos Coen




Pensei que os irmãos Coen não teriam gás para fazer algo tão criativo num intervalo tão curto. Afinal, só passou um ano do lançamento de Onde os fracos não têm vez, tão bom que ganhou 4 Oscars em 2008. Ainda bem que estava errada. Os caras se superaram com Queime depois de ler (Burn After Reading), uma comédia de humor negro com um roteiro absurdo (escrito por eles, claro), envolvendo espionagem, CIA, traição, sexo, dois paspalhões de uma academia atrás de uma grana extra, e muito, muito humor. Minha semana foi salva com esse filme. Fazia tempo que não gargalhava tanto numa sessão de cinema. Eu e a platéia toda. As situações criadas pelos Coen evoluem numa sucessão de fatos tão non sense que o público pensa: isso não vai dar certo!! E, é claro, tudo vira uma grande confusão no final. (Me lembrei do Woody Allen em seus melhores momentos). O elenco, este parece que foi especialmente criado para o roteiro dos Coen. Incrível, não tem ninguém ruim ali. Brad Pitt e George Clooney estão hilários, combinando trejeitos e um figurino de nos fazer rir só de olhar para eles. A Francis McDormand - como sempre - está no seu habitat natural, faz os filmes de seu marido e cunhado com os pés nas costas. Se os irmãos Coen fizessem um filme desses por mês, o mundo estaria salvo! E a humanidade mais leve.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Il Divo

"Il Divo" é um dos inúmeros apelidos conhecidos do ex-primeiro-ministro italiano Giulio Andreotti, líder dos democratas-cristãos e que governou a Itália por três mandatos (de 1972 a 1992). O filme com o mesmo nome, dirigido por Paolo Sorrentino, é puro cinema e um dos destaques da Mostra Internacional de São Paulo. Difícil encontrar uma obra de arte no meio de 400 títulos nacionais e internacionais competindo em horários e salas diferentes durante 15 dias. Uma maratona que cansa, estressa e que, neste ano, não me envolveu muito. Cheguei na sala 1 do Artepelxe atrasada (mais de 10 minutos), fui obrigada a sentar na primeira fila porque o cinema estava lotado e os frequentadores da Mostra nao têm muita paciência com quem chega atrasado, comendo e fazendo barulho (eu só estava atrasada). Não levava muita fé num filme autobiográfico de um político democrata-cristão, que dormia como se estivesse espichado dentro de um caixão (morto), jamais esboçava sorrisos, estava sempre com as mãos cruzadas na frente ou nas costas, falava pouco, rezava antes de jantar, mantinha laços de amizade com bispos, padres e até com o papa e se irritava (do seu jeito, só com um tique com as mãos) quando o interlocutor falava coisas banais ou pouco inteligentes. Um sujeito difícil, de poucas palavras. Uma pessoa soturna, impregnada daquela solidão que só o poder presenteia, e ainda com suspeitas de ter tido envolvimento com a máfia italiana (essa é a razão da cinebiografia).
E Sorrentino conseguiu, com esse tema e personagem central, fazer um belíssimo filme, em que ator (Toni Servillo, fantástico), direção, roteiro e música (e que trilha!) casam perfeitamente formando um conjunto harmonioso da sétima arte!

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Na fila para assistir Palermo Shooting, de Wim Wenders (com direito a um bate-papo com ele no final da sessão), pude ouvir essa pérola:
- Você acha que o Carlos virá?
- Que Carlos? o cinéfilo?
- Sim.
- O Carlos não vê nada da Mostra. Ele acha tudo muito burgues.

Me mate logo, como dizia uma amigo meu baiano....!!!

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Sem tempo...

domingo, 5 de outubro de 2008

Riqueza

Sempre fui fã de Warren Buffet. O bilionário avaliado em 50 bilhões de dólares, com grande criatividade para ganhar dinheiro e aplicá-lo, mas sem deixar de ser generoso na hora de distribuir essa riqueza. Na coluna de Élio Gaspari de hoje, na Folha, fiquei sabendo mais um pouco sobre esse ricaço simpático, com a cara de meu avô (que pena que não é!), que já doou US$ 40 billhões para organizações filantrópicas. Além de ser um dos executivos com menores salários anuais entre os CEOs das 200 maiores empresas americanas e viver de forma simples numa cidadezinha do interior de Nebraska, o que chama a atenção em Buffet, esse homem de hábitos comuns e nada excêntricos, são as apostas quase "banais"feitas por ele para manter sua fortuna. Ele investe em itens que o ser humano não abre mão, mesmo em época de crise. Dois deles: Comida e lâminas de barbear.
As crianças africanas - beneficiárias de boa parte de sua fortuna, junto com a de Bill Gates - agradecem. Talvez a humanidade ainda tenha salvação. É bom ter gente criativa para ganhar dinheiro. Melhor, ainda, se a criatividade for usada para distribuir essa riqueza.
A íntegra da coluna está em
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0510200810.htm

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Era digital

Cena 1
Um bando de gente - homens e mulheres jovens, na faixa dos 25 aos 35, cheios de vitalidade, com crachás inteligentes pendurados no pescoço e vestidos de forma informal, - aguarda na frente de uma larga porta fechada de um teatro que se abrirá exatamente às 14h. Faltam cinco minutos e o porteiro, do tamanho de um armário, não deixa ninguém passar. A ansiedade vai tomando conta das pessoas, o burburinho cresce. Penso que uma expectativa semelhante poderia se esperar de um show da Madonna, embora não fosse entretenimento o que nos aguardava atrás daquela porta. Às 14h10, finalmente, o porteiro abre o recinto e começa a ler os crachás com seu coletor de dados infrared. Um público impaciente se joga nas cadeiras, aliviado.
Cena 2
O teatro é o auditório do Centro de Convenções do World Trade Center, lá na marginal Pinheiros, em São Paulo. As pessoas que aguardam o "show" para dali a alguns minutos são gerentes de TI, marqueteiros digitais, criadores de conteúdos móveis, desenvolvedores de sites para a Web, jornalistas especializados em tecnologia. Uma nova geração. Estavam ali para ver e ouvir um alto executivo do Yahoo! fazer suas previsões sobre os rumos da Web 2.0 na tela móvel. De repente, noto um movimento único e curioso, e perfeitamente apropriado para o tema em questão. As pessoas ligam seus laptops, seus ultra portáteis , seus smartphones e celulares bacanas e começam a checar e-mails, acessar a internet, escrever no blog, mandar SMS, entrar em programinhas de chats, checar planilhas.
O palestrante ilustre sobe ao palco para começar a palestra e é aplaudido. Mas, essas mesmas pessoas que recebem o convidado não desgrudam os olhos de suas telas iluminadas na escuridão e, sem a menor cerimônia, continuam suas tarefas iniciadas minutos atrás.
E eu me pergunto: aquela ansiedade demonstrada antes da abertura das portas do teatro/auditório seria mesmo para ver o executivo do Yahoo? Ou era uma simples demonstração da angústia da nova era, a de não conseguirmos abrir mão de algumas horas do nosso precioso tempo para desfrutar o momento, sem precisarmos ficar checando e-mails, entrando em redes de relacionamento virtual, conectando pessoas do outro lado da linha, mandando SMS para o colega de trabalho, lendo as notícias, acessando sites favoritos. Será que não podemos simplesmente parar e ouvir?
Ai que preguiça!

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

aos 60

Chegar aos 60 com saúde, vigor físico para continuar trabalhando, um pouco de dinheiro no bolso para a diversão e viagens, e tesão para o que der e vier nesta vida (inclusive para o velho e bom sexo) é uma dádiva. No Brasil, onde os sistemas de previdência social e de saúde pública não são exatamente um primor, é uma sorte chegar lá carregando essa bagagem. Quem puder pagar uma aposentadoria privada e um convênio particular se habilita a um futuro mais garantido. Teoricamente, pelo menos. Mas, presentes de grego estão sempre à espreita nesses aniverários redondos, quando estamos prontos a permear mais uma década.
Um conhecido meu acaba de completar 60 anos. Junto com as velinhas, o bolo, novos cabelos brancos, algumas ruguinhas extras e a alegria de estar saudável e em plena forma, ele recebeu um presente especial, embalado cuidadosamente dentro de um envelope branco e colocado debaixo da porta. O remetente era seu plano de saúde. A notícia, que coincidiu com o aniversário, não era das melhores e nem menos apropriada para uma data tão festiva. Era um comunicado sobre o aumento do seu convênio médico: nada menos de 140% para os próximos 10 anos! Uma praxe dessas seguradoras, aliás, levando em consideração que ao atingir a terceira idade você forçosamente será uma pessoa decrépita, doente, queixosa da vida, e dando muito trabalho aos seus familiares ou amigos mais jovens, tomando remédio para depressão, se enchendo de bolas para dormir.
É essa a idéia que essas empresas sanguessugas fazem de um sessentão? Pois conheço muita gente em plena atividade com mais de 60. Estão trabalhando muito, fazendo academia, viajando, escrevendo, atuando, correndo, fazendo um check up por ano, sem gastar o precioso dinheiro dos seguros (que é nosso, afinal) com médicos ou exames sistemáticos. O fato de passarmos de uma década para outra não deve ser motivo de tristeza e sim de regozijo. É momento de comemorar e não de chorar. Mas eles não deixam!!!

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

como ser zen?




A cidade mantém um ronco surdo e constante ao fundo. São os carros, os motores das obras, os caminhões de entulhos, o barulho das motos, tudo se junta para formar esse ronco uníssono que nunca cessa. Sem falar das sirenes, das buzinas, das freadas bruscas. O ar é pesado, meus olhos ardem e a cabeça dói. O inverno paulistano tem temperaturas acima de 30 graus, sufoca e nos mantém meio inertes e com uma sensação de torpor. Me lembro do verão de Porto Alegre, insuportavelmente quente e úmido. Aqui é tudo seco. A umidade do sul ficou para trás (isso é bom). Ladeiras íngremes, calçadas largas, muita gente na rua caminha apressadamente. Parece que todos estão atrasados para chegar a algum lugar. E devem estar mesmo. Celulares tocando a cada dois metros na minha frente, do meu lado, atrás de mim, na rua, nos elevadores, nas salas de espera, dentro dos carros. Musiquinhas irritantes sem dar trégua aos ouvidos mais sensíveis. Restaurantes lotados e comida meia-boca. Barulho, todos querem falar ao mesmo tempo e mais alto para serem ouvidos. Filas para entrar, filas para sair, filas no banco, filas no cinema, filas no metrô. Ninguém te deixa sair do trem, te atropelam antes. Ou você empurra e dá uma de mal educada, ou é empurrada porta adentro de novo. Metrôs de grandes cidades cosmopolitas não precisam ser assim. Em Nova York, Londres, Paris, Tóquio, onde os trens também são congestionados nas horas de pico, as pessoas te dão uma chance para descer ou subir, sem grandes atropelos. É só uma questão de educação.
Enfim, esse é o ritmo e o estresse de São Paulo. É preciso ser zen para sobreviver ao caos.