segunda-feira, 5 de julho de 2010

O adeus

Alguns dias se passaram desde que nosso amigo de tantos anos - mais de 20 -, Alberto Guzik, partiu. Demorei um pouco para escrever algo sobre ele porque também estou tentando entender essa perda. Até agora ainda não percebo esse fato como sendo real, embora tudo me indique a realidade, a sua cremação, a missa de sétimo dia, a dor e a saudade das pessoas. Não sei para onde ele foi. Mas, certamente, acho que é um lugar de luz, como eram os palcos em que ele atuava e onde ele se sentia em casa.
Homem dos livros (escreveu alguns), do teatro (atuou, escreveu e dirigiu várias peças), do jornalismo (era um dos grandes críticos de teatro deste País, à época do Jornal da Tarde, onde trabalhamos juntos por 15 anos), um professor incansável, e dono de uma cultura que assombrava. Sempre tinha uma referência sobre o autor de um livro que a gente estava lendo, o filme que íamos ver, ou a peça que acabávamos de assistir. O cara conhecia mitologia grega profundamente, lia Shakespeare no original e poderia traduzir Jean Racine, se fosse preciso. Guzik era um Google com relevância e critério.
Sua partida nos deixa mais solitários. Quando uma pessoa querida morre, se vai com ela um pedaço de nós. A morte carrega nossas lembranças, nossos bons e maus momentos compartilhados, nossas referências. Um pouco da gente também morre, e a gente se entristece, chora e não se conforma, por mais estóicos que sejamos.
Só torço para que meu amigo tenha escolhido um bom lugar pra ficar, tomara que seja cheio de holofotes.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Sem comemoração, por enquanto...

Guzik
Queria poder comemorar contigo seu aniversário amanhã, fora desse leito de hospital, dessa UTI, longe de médicos e enfermeiros, comendo bolo e bebendo um refrigerante na sala de tua casa, e vendo você já pronto e recuperado. Mas, infelizmente, não vai ser possivel ainda. As coisas não acontecem no mesmo ritmo que a gente planeja. Às vezes, ocorrem alguns desvios de rota, fazendo com que nosso caminho fique mais longo e tortuoso. Mas, mesmo que esteja demorando um pouco mais, sei que você sairá daí porque acredito na sua força, no seu otimismo e nas suas sete vidas que você demonstrou ter nesses três meses e meio de internação. Durante esse tempo todo, nunca vimos estampado eu seu rosto o sentimento de que estava perdendo a batalha, ao contrário, era você quem nos encorajava com suas palavras. É por isso que estamos cheios de esperança, queremos compartilhar da sua companhia de novo. E, em breve, comemorarmos o seu aniversário como você merece.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Guzik

Notícias do Alberto Guzik, nosso querido amigo, jornalista, ator, dramaturgo, escritor, que está no hospital há quase quatro meses. O relato abaixo é de Ivam Cabral, outro querido nosso.






foto: Laerte Késsimos

"Como já contei por aqui, no dia 16/02, o Alberto Guzik se submeteu a uma cirurgia de gastrectomia total (retirada total do estômago) com linfadenectomia expandida (retirada dos gânglios). Este procedimento, segundo nos explicou seu médico, obriga uma manipulação do pâncreas - para a retirada dos gânglios -, que começou a desenvolver pancreatite aguda - complicação comum neste tipo de cirurgia.

Durante sua recuperação, também apresentou "deiscência da sutura do esôfago com o intestino" - o grampeamento do esôfago com o intestino não cicatrizou - o que determinou uma saída de líquido intestinal pelo dreno; e sua pancreatite, aguda grave, iniciou um processo de necrose em algumas áreas. Como se não bastasse, Alberto também contraiu pneumonia e em seguida uma bactéria. Passou, então, por um terrível processo de recuperação.

Nos últimos dias, no entanto, Alberto estava sereno. Em nenhum momento reclamou de coisa alguma. Queria a recuperação para poder voltar ao trabalho, aos amigos, aos livros. Telefonei-lhe de Paris, na sexta, para dizer que o amava e que estaria ao seu lado quando voltasse da cirurgia.

Porque ontem, no momento em que a pancreatite, pneumonia e bactéria estavam sob controle, Alberto passou por mais um procedimento ainda para tentar solucionar a cirurgia de gastrectomia que não havia sido completada. Agora se recupera na UTI e seu quadro é estável, inspirando muitos cuidados.

E no dia 9 de junho Alberto faz aniversário..."

Guzik, querido, estamos todos concentrados na sua recuperação.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Steinbeck, sempre atual

Acabei de ler, tardiamente, um livro lindo do John Steinbeck: The Winter of our Discontent (no Brasil, foi traduzido como O Inverno de nossa Desesperança). O nome é uma referência à frase dita por Ricardo III na peça de Shakespeare. Se ainda havia dúvidas na Academia, foi provavelmente a obra que faltava para o Nobel conquistado por ele em 1962. O autor de Vinhas da Ira, Ratos e Homens e Vidas Amargas (East of Eden) esmiuça a vida de Ethan Hawley, um sujeito simples do interior dos Estados Unidos, chefe de família e empregado de uma mercearia. Aborda a sua crise moral diante de tantos apelos à corrupção da pequena cidade (fictícia) de New Baytown e seu conflito interno para não ceder a esses chamados do lado "negro da força". Falava mais alto a pressão dos filhos para terem uma tevê e um carro. Corria o ano de 1961, e era inadmissível a uma família americana não possuir um automóvel, uma tevê, uma máquina de lavar. Essas coisas que formam a base da sociedade americana (o consumismo). Ethan era um homem que prezava os valores da pátria e da família, mas precisou encarar alguns desvios de conduta, e a vida passou a ficar meio complicada... Enfim, um livro e tanto, com uma prosa fluida e gentil com o leitor.

Destaco aqui um dos trechos mais comoventes:
Acho que somos todos, ou pelo menos a maior parte de nós, guardiões daquela ciência do século 19 que negava a existência de qualquer coisa que não pudesse medir nem explicar. As coisas que não éramos capazes de compreender continuavam acontecendo, mas não tinham a nossa benção. Não enxergávamos o que não éramos capazes de explicar e, por isso, uma enorme parte do mundo ficava abandonada às crianças, aos loucos, aos tolos e aos místicos, que estavam mais interessados no NO QUE do que NO PORQUÊ. TANTAS COISAS ADORÁVEIS E ANTIGAS ESTÀO GUARDADAS NO SÓTÃO DO MUNDO...Não as queremos por perto, mas não temos coragem de jogar fora.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

...

Estou um pouco afastada do blog, das coisas. Flutuo no tempo. Continuo cultivando meu hábito de ir ao cinema e ao teatro, mas estou sem nada interessante para destacar neste momento. A vida anda. Às vezes célere, noutras um pouco mais devagar. Mas poupo meus quatro leitores de digressões vazias e desprovidas de qualquer importância neste momento. Volto logo.

domingo, 11 de abril de 2010

Piratas brasileños

No meio de frutas, legumes e pasteis, um novo item está sendo vendido nas feiras de São Paulo. CDs piratas de filmes. Começo a achar que as locadoras de vídeos estão com os dias contados, ou ficarão limitadas apenas a títulos de seriados americanos e aos cults. Eu, mesma, já vi na frente de um cinema (eles são muito caras-de-pau) um sujeito vendendo títulos totalmente cultuados pelos cinéfilos, com assinaturas de Godard, Antonioni, Pasolini. Incrível! A gente vê à venda, em banquinhas improvisadas ao lado do metrô e nas calçadas da Paulista, lançamentos de filmes que nem chegaram ainda às telas dos cinemas. Já estão prontas as cópias do novo Woody Allen, por exemplo, e alguns títulos que nem estão em trailers no cinema... Carregando meus caquis, batatas e alfaces, perguntei ao ambulante sobre a qualidade desses CDs, e se eram legendados. Ele me disse que todos os seus "produtos" têm qualidade de DVD, e,agora, dispõe de legendados e dublados porque as pessoas têm preguiça de ler... Quase caí pra trás. Quer dizer que a indústria da pirataria se sofisticou a esse ponto? E o Chico Xavier? Esse nao tenho ainda, a qualidade da cópia é muito ruim, prefiro não vender para não prejudicar o meu negócio, me disse o cara, com sotaque castelhano. Na verdade, os ambulantes estão fulos porque não conseguem piratear filmes brasileiros. Bom, só faltava esta.

domingo, 28 de março de 2010

papo de rua

Dois homens conversando na rua. Um deles larga essa:

"Se você for casado, hetero, fiel e branco está ferrado. O bom hoje é ser meio gay, negro e infiel. Aí, sim, você conquista a mulherada e o chefe."

Quase pedi para ele repetir. A gente ouve cada uma...