
O novo filme argentino de J.J. Campanella, "O segredo de teus olhos", pode ser que não ganhe o Oscar de melhor filme estrangeiro porque o "Fita Branca", do Michael Haneke, está muito cotado. Dos concorrentes a essa categoria só vi o argentino. E adorei.
Eles continuam fazendo filmes muito bons, ancorados em ótimos diálogos, atores expressivos (Ricardo Darín é um caso à parte), direção precisa e fotografia belíssima. Neste caso, até a maquiagem usada para destacar o envelhecimento dos personagens está perfeita, coisa não muito fácil no cinema. Especialmente quando a câmera é pródiga nos planos fechados e closes.
Fico me perguntando sempre: por que a gente não consegue esse resultado nas nossas telas? Sei que é um clichê falar isso, já que todos que saem da sessão fazem o mesmo questionamento.
Por que os argentinos conseguem retratar o seu cotidiano, a sua classe média, os seus problemas, o seu legado (ditadura, crises) de forma tão poética e envolvente? Mesmo que o roteiro emule alguns recursos já filmados pelo mesmo diretor (misturar passado com presente, evocar a ditadura), tudo parece novo. Até um romance, enredado entre idas e vindas, passado e presente, com direito a uma longa cena de despedida na estação de trem, Campanella faz bem e sem cair na pieguice.
Eu gosto e tenho carinho pelo cinema brasileiro. Mas nas nossas telas (com raras exceções) a estética pesada da violência e das drogas é uma obsessão. Queria tanto ver um cinema brasileiro tão bom (e realista) quanto o da Argentina, país que também tem violência, drogas, pobreza, (teve) ditadura e uma imensa classe média. E, para nos humilhar ainda mais, Campanella reúne em "O Segredo.." o suspense de um thriller policial, comédia e romance, Ai que inveja!
p.s. Dois filmes brasileiros dos quais gostei muito por terem fugido do tema favela/violência foram À Deriva, de Heitor Dhalia, e É Proibido Fumar, de Anna Muylaert.